30 de agosto de 2025
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José Mujica ex-presidente do Uruguai morre aos 89 anos

Ex-guerrilheiro, militante de esquerda e político, Mujica tinha tumor no esôfago em estágio avançado. Ele lutou contra a ditadura, sofreu tortura e governou o país entre 2010 e 2015.

José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai, faleceu nesta terça-feira (13) aos 89 anos. A notícia foi confirmada pelo atual presidente uruguaio, Yamandú Orsi, considerado um dos sucessores políticos de Mujica. “É com profundo pesar que anunciamos o falecimento do nosso colega Pepe Mujica. Presidente, ativista, referência e líder. Sentiremos muita falta de você, querido velho. Obrigado por tudo o que você nos deu e pelo seu profundo amor pelo seu povo”, escreveu Orsi em suas redes sociais.

Mujica havia anunciado em abril de 2024 que estava com um tumor no esôfago, com o órgão “muito comprometido”. Em janeiro, durante uma atualização sobre seu estado de saúde, ele informou que o câncer havia se espalhado. Na última segunda-feira (12), sua esposa, Lucía Topolansky, ex-vice-presidente do Uruguai, revelou que Mujica estava em estado terminal e recebia cuidados paliativos.

Ícone da esquerda e defensor da vida simples

José Alberto Mujica Cordano nasceu em Montevidéu no dia 20 de maio de 1935. Nos anos 1960, ele se tornou um membro ativo da guerrilha Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, que se destacou pela luta contra a repressão do governo e por agências de ações sociais, como assaltos a bancos para distribuir comida e dinheiro aos pobres antes da instalação da ditadura militar uruguaia em 1973.

Durante seus anos de militância, Mujica foi ferido quatro vezes em confrontos com as forças policiais e escapou duas vezes da prisão, mas foi recapturado definitivamente em 1972. Ao todo, passou 14 anos encarcerado, sofrendo torturas e condições desumanas. Em 1985, após a promulgação de um decreto de anistia, Mujica foi libertado e tomou o caminho da política institucional.

Com a liberdade, ele ajudou a fundar o partido de esquerda Movimento de Participação Popular (MPP) e foi eleito deputado em 1994. Em 1999, ele chegou ao Senado e, em 2005, foi nomeado ministro da Agricultura com a chegada à presidência de seu correligionário Tabaré Vázquez (1940-2020).

Presidência e legado

Como presidente do Uruguai, de 2010 a 2015, Mujica se tornou uma figura emblemática da esquerda sul-americana. Ele era conhecido por seu estilo de vida simples, vivendo em uma pequena propriedade nos arredores de Montevidéu e dirigindo seu antigo Fusca de 1987 até o trabalho todos os dias. Essa simplicidade contrastava fortemente com os costumes de líderes políticos típicos, fazendo dele um ícone mundial.

Durante sua presidência, Mujica se dedicou a políticas sociais e ao aumento dos investimentos em saúde e educação. Ele elevou o gasto social de 60,9% para 75,5% dos gastos públicos e aumentou o salário mínimo em 250%. Em 2012, ele propôs e implementou a legalização do consumo e venda de maconha no Uruguai, tornando-se o primeiro país do mundo a regulamentar a produção e a aplicação da substância.

Após deixar a presidência, Mujica voltou ao Senado, onde continuou a exercer suas funções até 2020, quando renunciou devido a problemas de saúde, em meio à pandemia de Covid-19. Mesmo após o término de seu mandato, Mujica se destacou por suas ações altruístas, donando 90% de seu salário como ex-presidente para projetos voltados ao combate à pobreza.

Mujica passou os últimos anos de sua vida cuidando de sua horta e desfrutando da simplicidade. Durante a maior parte de sua vida, se declarou ateu, mas em uma entrevista de 2012, sintetizou sua crença de forma poética, dizendo: “Não tenho religião, mas sou quase panteísta: admiro a natureza”. Suas reflexões sobre a vida, a política e a natureza da sociedade deixaram um legado de esperança e inspiração para muitos, especialmente em tempos de incerteza.

A morte de José Mujica é uma grande perda não apenas para o Uruguai, mas para todos aqueles que acreditam na luta pela justiça social e pelos direitos humanos. Ele será lembrado como um homem que, mesmo em meio a adversidades, nunca perdeu sua compaixão pelo próximo e seu compromisso com a justiça. Sua vida e legado continuarão a inspirar gerações futuras a lutar por um mundo melhor e mais igualitário.

Foto: Reprodução/Instagram